Instituto Acqua dispara licitações internas após contrato bilionário e acende alerta sobre possível direcionamento na saúde do Maranhão

Dias depois de assinar o contrato de R$ 1,2 bilhão com a Secretaria de Estado da Saúde, o Instituto Acqua iniciou uma corrida silenciosa para montar a estrutura operacional do Hospital de Referência da Região Tocantina. Sem anúncio oficial sobre a data de inauguração e sem detalhamento público das etapas finais da obra, a organização social passou a publicar editais próprios para contratar empresas médicas e prestadores de serviços de forma acelerada, num movimento que já provoca desconfiança entre profissionais do setor e agentes políticos do Maranhão.

Os processos lançados pelo Acqua seguem o modelo interno permitido às organizações sociais, mas chamam atenção pelo ritmo e pela forma. São editais simplificados, com prazos reduzidos, julgamento fechado e centralização em uma sala do instituto em São Luís, distante do hospital que será administrado em Imperatriz. Esse tipo de procedimento, embora legal, tem histórico problemático no país: é justamente nele que surgem contratações de fachada, favorecimento de grupos específicos e terceirizações feitas sem concorrência real.

Na prática, o Acqua tem liberdade para escolher, sozinho, as empresas que vão operar plantões, prestar serviços médicos especializados, fornecer mão de obra técnica e assumir parte das atividades essenciais do hospital. Não há acompanhamento público do processo, não há transparência sobre os participantes e não há obrigação de publicar a composição do orçamento estimado. O Estado, que está financiando a operação com recursos bilionários, não interfere em nada.

O cenário fica ainda mais sensível porque os editais do instituto foram publicados logo após a repercussão negativa do contrato bilionário firmado com a SES. A pressa repentina, somada ao silêncio sobre a data de inauguração e à ausência de informações sobre a estrutura final do hospital, reforça a percepção de que há uma movimentação paralela para acelerar contratações antes que a fiscalização externa se estabeleça.

As licitações internas do Acqua, hoje conduzidas de forma quase invisível, definirão quem vai faturar dentro de um dos maiores contratos da saúde pública maranhense. A preocupação é que empresas recém-criadas, sem histórico ou com vínculos políticos, acabem assumindo fatias significativas da operação, repetindo padrões já vistos em outras gestões hospitalares do país.

O governo ainda não se manifestou sobre a velocidade dos processos, nem esclareceu quando o hospital será entregue à população. Enquanto isso, o Instituto Acqua avança na escolha de fornecedores e prestadores de serviço sem que o Maranhão saiba quem está por trás dessa nova rede de contratações. É justamente nesse ponto que se concentra o maior risco do contrato: não no valor bilionário em si, mas no poder silencioso de distribuir recursos públicos por meio de editais internos pouco transparentes.

A investigação continua. E, quando os nomes das primeiras empresas selecionadas vierem à tona, a história poderá ganhar contornos muito mais claros e possivelmente muito mais preocupantes.